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Caderno da Criatividade

Procuramos e partilhamos fontes de inspiração para despertar a criatividade, online e não só.

Sobre este blog

Um blog da equipa do SAPO Blogs dedicado à criatividade virtual e não só. O que nos inspira? Como podemos ser mais criativos e partilhar essa criatividade? São algumas das perguntas que motivam este blog.
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Escrita com cor

A criatividade de Olga Cardoso Pinto

Dezembro 15, 2020

Pedro Neves

O nosso Caderno esteve parado, mas a Criatividade continuou por aí, à solta. A Olga Cardoso Pinto, autora do blog A Cor da Escrita, é um exemplo de alguém que aplica criatividade a tudo o faz  e não é pouco: escreve, desenha e fotografa. Colocámos-lhe algumas perguntas por escrito, para saber o que a criatividade faz por si e a inspira.

 

Pedro Neves: Para quem não conheça a Olga, o que nos pode contar sobre si?

Olga: Não me vou alongar muito logo nesta primeira pergunta, penso que podem conhecer-me melhor lendo o meu blog, ele é um pouco daquilo que sou. No entanto posso acrescentar: sou muito apegada à família e tenho uma maravilhosa que me apoia incondicionalmente, é o meu porto de abrigo. Sou mãe de dois homens maravilhosos, o meu querido marido e companheiro é o meu melhor amigo e recentemente fui avó de uma querida menina encantadora, e tenho uma gatinha com quinze anos que é muito especial.
Nasci em Angola e fui criada num lar cheio de tagarelice e risos femininos que de masculino só havia o pai e o papagaio. Amparada por pais extremosos que me estimulavam, assim como as irmãs e avós, cedo ouvi o elogio e incentivo como forças motivadoras para querer fazer mais e melhor. Com a avó materna ganhei o gosto das estórias e lendas que nunca esquecerei.

O blog A Cor da Escrita junta a sua prosa, poesia e ilustração. Qual destas lhe dá mais prazer? E é o seu primeiro blog?

Todas elas me dão prazer, mas a ilustração e o desenho são acalentados desde que me lembro. O gosto pela escrita veio do gosto da leitura e, como anteriormente referi pelas estórias contadas pela avó. Todas elas se complementam. São uma necessidade para mim, auxiliam-me a expressar os meus sentimentos e emoções. Também gosto de escrever para contar estórias inspiradas em lugares, pessoas e experiências. Acrescento que a fotografia também é outra vertente que me cativa bastante, consigo escrever um texto só de observar uma foto, assim como quando sou inspirada por uma paisagem ou um tema para ilustrar e escrever.
A Cor da Escrita é o meu segundo blog. Entrei nesta comunidade em 2007, a convite de uma das fundadoras do SAPO Mulher, para fazer parte dos consultórios disponibilizados para as leitoras com o Consultório de Moda onde dava dicas sobre moda, consultoria de imagem e beleza e informação sobre tendências. Foi muito interessante, pois foi inovador e muito acarinhado por muitas mulheres e também homens, tornando-se uma referência na blogosfera e também na comunicação social.

Como é que descreve o seu estilo de ilustração? E quando é que começou a desenhar?

O estilo da minha ilustração é fruto da soma de anos a estudar, a treinar o olhar e a mão, a experimentar vários materiais e estilos. Gosto que o meu desenho seja claro, fácil de interpretar, despojado, sem grandes adereços, por tal escolho a aguarela e traços finos que continuem visíveis no final.

O meu objetivo é que a minha ilustração conte uma estória, narre por imagens uma impressão que cause, a quem observa, alguma emoção. Para ilustrar o que é escrito, pretendo que o desenho seja um género de sinopse, pode ser para capa de um livro, um poema, conto ou então seja simplesmente para marcar um acontecimento.

Quando comecei a desenhar? Já devo ter nascido a desenhar 😊

Recordo que passava horas a ver as ilustrações que pudesse apanhar, fossem em livros ou jornais. Isto antes de aprender a ler. Depois passava outras tantas horas a desenhar e a pintar. O meu pai foi o meu maior mentor, foi a ele que fui buscar este dom (desculpem, para mim é mesmo um dom do qual estou grata). Era eu muito pequenina, quando ele me ofereceu um estojo de lápis de cor, de lápis de cera e canetas de feltro, enorme! Gostava tanto dele, admirava aquelas cores todas que me davam gosto a usar e ao mesmo tempo pena de as gastar. Até usar tudo, toda a família era presenteada com desenhos quase todos os dias! Tinha cadernos e mais cadernos com desenhos de todos os géneros. Depois ganhei de presente uma coleção de aguarelas, senti-me mais crescida e aí gastei as tintas com parcimónia. Num Natal tive de presente um livro sobre desenho anatómico, com ele aprendi como desenhar o corpo humano na perfeição, sabia todos os ossos e músculos! A verdade é que se revelou uma grande ajuda nos tempos do curso. Ainda hoje gosto muito de retrato e de desenhar pessoas.

Na hora de desenhar, o que a inspira mais?

Para me inspirar não preciso de muito, basta estar sintonizada no que é necessário ou pedido. No entanto, refiro que adoro inspirar-me na natureza, onde há uma infinidade de temas sugestivos que me podem levar a criar trabalhos de fantasia, ficção ou hiper-realismo.
Também adoro inspirar-me nas crianças, desenhar para elas, são o melhor público que podemos ter, apreciam de verdade, criticam de verdade e amam de verdade o que para elas criamos.

Ao nível da ilustração, que ferramentas gosta mais de usar (por exemplo, gosta de usar o papel ou prefere técnicas digitais)?

Gosto de usar ambas. O papel é sem dúvida o eleito porque permite grandes dimensões e o contacto com a textura dos materiais. Quem gosta de pintar e de desenhar entende o que vou dizer: não há nada como entrar num atelier e sentir aquela sensação de ver e cheirar cada espaço coberto de telas, cadernos, esboços e tintas, pincéis, lápis, grafite e pastel para despertar em nós o desejo de desenhar. Porém, o digital permite um trabalho mais rápido, na concretização da ilustração em si, e na excelente qualidade para impressão, sendo mais económico a nível de materiais consumíveis.

Que importância tem a criatividade no seu dia-a-dia?

A criatividade para mim é essencial, acho que não sou eu mesma sem ela, todos os dias a uso - seja para escrever ou para desenhar. Tem de haver criatividade em tudo o que eu faço, mesmo para cozinhar, senão é um aborrecimento total. 😊
A minha formação, em design de moda, levou-me a desenvolver a criatividade até limites que nunca imaginei. Depois, na profissão foi essencial para a aceitação e o sucesso do meu trabalho. Isto porque a criatividade também vem muito do conhecimento, da observação, da busca de informação, da aprendizagem constante e de estar atento ao que nos rodeia.

Que técnicas ou artes gostaria ainda de aprofundar?

Gostaria muito de aprender a fazer animação. Gosto bastante desta arte, pois condensa nela dois mundos que aprecio muito – a escrita e o desenho. Quem sabe? Ainda tenho muito tempo e aprender não ocupa lugar.

Obrigado, Olga!

Obrigada ao Caderno da Criatividade, em especial ao Pedro, pela oportunidade!

Criatividade em croché

Junho 16, 2020

Pedro Neves

O Sr. Macaco, um dos trabalhos do Miguel em croché

Não é todos os dias que encontramos um macaco em croché nos blogs. O pequeno boneco impressionou-nos e deixou-nos curiosos em relação ao seu autor e blog. Colocámos algumas perguntas por escrito ao Miguel sobre os seus trabalhos em croché e como se iniciou nesta arte.

Podes falar-nos um pouco de ti?

Um pouco de mim... Sou o Miguel, sou de Braga e tenho 25 anos.
Tirei um curso profissional de desenho e desde que terminei os meus estudos que tenho trabalhado em diferentes áreas desde a restauração, indústria e agora num hipermercado.

Como descreves os teus trabalho de croché?

Os meus trabalhos de croché são inspirados na arte do amigurumi (uma técnica japonesa para criar bonecos de croché), mas atualmente tenho aprendido novas técnicas e tenho vindo a desenvolver projetos próprios, de amigurumi a roupa de bebé.

Fiquei a conhecer o amigurumi nas revistas de croché da minha mãe, apareciam lá por vezes uns bonecos e eu adorava ver. Agora tenho visto, através do YouTube, vídeos de tutoriais para aprimorar a minha técnica.

Há quanto tempo fazes croché? E como te iniciaste nessa arte?

Iniciei a minha aprendizagem nesta arte em pequeno, desde os meus 10 anos que venho fazendo aquilo que eu chamava de pulseiras da amizade. Aprendi com a minha mãe, gostava de a ver a fazer os trabalhos dela.

Porque decidiste criar o Harry Handmade?

Faz algum tempo que criei um blog aqui e ainda o mantive por um tempo mas acabei por não me dedicar tanto a ele. Decidi criar o Harry Handmade para mostrar aquilo que gosto de fazer. De início, pensei em mostrar só os meus trabalhos mas penso que no futuro irei voltar a partilhar sobre outras coisas que venha a fazer, mas o foco será este,
o do croché.

O teu boneco Sr Macaco impressionou-nos. O que acontece aos bonecos que vais fazendo?

Agradeço desde já o elogio ao trabalho do Sr. Macaco. Como primeiro original, sinto uma grande felicidade em ver a reação positiva ao meu trabalho. Os bonecos que faço tenho oferecido a pessoas que são importantes para mim. Ofereço como presentes de aniversário, na maior parte das vezes.

Onde vais buscar inspiração para o teu dia-a-dia?

Inspiração encontra-se em todos os lados. Como aquariano, sou bastante criativo e observador e qualquer coisa que veja faz-me sentir vontade de criar algo.

Tens alguma ambição (criativa, comercial ou outra) em relação ao teu croché, ou é algo que encaras como um lazer? E achas que vamos ver algum dia um sapo de croché no teu blog?

Gostava muito de conseguir fazer de um hobby que me dá imenso prazer uma fonte de rendimento, mas por agora tenho usado o croché para aliviar o stress do dia-a-dia. Em relação ao sapo acho que sim, o futuro será fazer uma espécie de Jardim Zoológico e quando o sapo vier, será enviado como agradecimento para a equipa do sapo.

Obrigado, Miguel!

"A entrevista é sempre uma maneira de termos liberdade"

Fomos conversar com o Amaro Figueiredo, criativo, poeta e entrevistador

Março 31, 2020

Pedro Neves

amaro.jpg

A entrevista pode ser um exercício de criatividade? O Depois em Seguida, um blog de entrevistas a artistas e criativos, mostra que sim. Fomos conhecer um pouco melhor um dos seus autores, o Amaro Figueiredo (na fotografia acima, tirada por Andreia Pena).

Podes falar-nos um bocadinho sobre ti? O que é obrigatório sabermos?

É obrigatório saber que sou do interior do país, com vaidade, de dentro para fora tudo tem mais significado. Faço parte da Associação Cultural Gambiarra, fundada pelo escritor Ricardo Fonseca Mota, vencedor do Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís 2015. Conto com mais de cem participações literárias – entre poesia, prosa e crónicas –, algumas exposições de artes plásticas e sou um dos escritores do projecto infantil “Tu Desenhas, Eu Escrevo”. Já assinei poesia com o nome Antonino Bernardo, em homenagem ao meu avô paterno, e para mim o amor e as memórias devem andar de mãos dadas, é o destino primordial da vida. Escrevi o texto “José” do primeiro episódio do projecto sou mesmo josé, ensaio biográfico sobre a adopção na perspectiva do adoptado, a primeira plataforma sobre a adopção em Portugal. Um projecto muito delicado e ao mesmo tempo maravilhoso do André Mariano.

Entrámos em 2020 e este ano, o meu ano, está direccionado para o cinema curto com duas curtas que escrevi. Começamos a gravar em finais de Março inícios de Abril, em Santa Comba Dão, ‘Pardais Caídos’, um drama familiar e que pretendo que a premissa seja assunto de debate. Já começámos com pequenos ensaios para a curta ‘Porque não se pode amar assim’, uma história LGBT baseada em factos reais e que será gravada em Lisboa por uma questão de logística e que conta com a participação especial de Pedro César Teles.

Diariamente trabalho numa instituição de doença mental e física. Sonhos e viagens fazem-se por etapas, tudo deve acontecer de forma natural, é o meu lema.

 

Qual foi o ímpeto para criar, juntamente com o Ismael Sousa, o Depois em Seguida? E como apresentarias o blog hoje?

A partilha. A partilha dos nossos interesses – os nossos gostos – seria o motor do blog. “Depois em seguida” era para ser só sobre o distrito de Viseu (risos), não sair de Viseu. Eu no início não tinha ideia que o blog pudesse chegar a tanta gente. “Depois em Seguida” sofreu umas pequenas alterações e neste momento é um blog fresco, sempre com vários factores ligados que o tornam activo, que oferece a curiosidade e é curioso. Acredito que as pessoas vejam o blog – talvez mais as entrevistas – com essa tal curiosidade e pensem: “tem pinta”.

 

Tens entrevistado, ao longo do tempo, uma série de pessoas que trabalham e se destacam pela criatividade nas suas áreas (teatro, escrita, ativismo, etc). Como é que surgiu a ideia para fazer estas entrevistas? E como tem sido a experiência de contactar, eventualmente ficar a conhecer, os entrevistados?

A entrevista é sempre uma maneira de termos liberdade e que liga as pessoas mais facilmente a um projecto deste tipo. Era importante haver entrevistas no blog. Tem sido muito enriquecedor, confesso. Não é o processo mais fácil do mundo, a disponibilidade do convidado é sempre um factor negativo, e nem eu nem o Ismael somos uma influência digital que facilite chegar a uma ou outra pessoa. Começámos pelos amigos, alguns amigos sugeriram amigo e é esta ligação necessária.

É curioso que há mais entrevistados do que entrevistadas. Não é fácil ouvir um sim de convidadas e nenhum convidado aparece só por acaso. Há histórias bonitas, os entrevistados são todos bonitos. Lembro-me do generoso sim do Esteban, que é considerado o jovem tapatío do expressionismo figurativo... ele no México eu em Portugal, ficaram viagens prometidas. A grandiosidade do Iván Saínz Pardo. Todos são criativos nas suas áreas, todos são especiais. É uma experiência enriquecedora a todos os níveis.


O formato das entrevistas também é original, através da oposição de ideias. O que te inspirou?

Todas as pessoas são interessantes. Todas as pessoas, ligadas as artes ou não, têm uma história, têm opiniões esmagadoras e que fervilham, e é curioso como, às vezes, são apanhadas desprevenidas - no bom sentido - nas oposições de ideias. As pessoas quando têm duas opções e têm que fazer uma escolha parece que existe um obstáculo gigantesco, uma espécie de radar humano surge e acaba por existir um maior raciocínio e que torna a resposta mais embelezada. Começámos por aí e esse raciocínio cuidado é engraçado. Não são fáceis algumas, tenho que admitir, já ouvi de muitos entrevistados. O problema é não conseguir passar a batata quente. Torna-se, talvez por isso, ainda mais palpitante o resultado final. As respostas chegam e parte, de e para todos os sítios.

 

Alguma resposta mais memorável até agora?

Todas são memoráveis. São muito mais de mil respostas, não é fácil escolher uma. Temos entrevistas com 2000 visualizações e isto é que é memorável.

Mas confesso que tento pôr-me nos lugares deles e tento adivinhar as suas próprias escolhas.

Lembro-me da última resposta do Gonçalo Puga sobre o Shin Chan. Ele foi pesquisar quem era o Shin Chan e transcreveu na íntegra uma notícia do site Delas.pt.


Quem tens no horizonte entrevistar? E quem é que gostarias de entrevistar que de momento pode parece inacessível?

Sim, é verdade. Como sou muito organizado tenho uma lista, dividida por áreas e com contactos. Albano Jerónimo, João Figueira, Isabel Rio Novo estão no horizonte. Carlos Salvador, da Querelle Films, é das pessoas mais difíceis de convencer e é meu amigo. Estou a aproveitar a ocasião para fazer pressão. Gostava de ver no blog a apresentadora Tania Llasera – The Voice Espanha –, a actriz Isabel Abreu, o José Guedes de Carvalho e estou a trabalhar para isso. Inacessível da minha lista: Johnny Hooker. Talvez. Pela curiosidade que ele me provoca.

 

A nível pessoal, em que área te sentes mais criativo? E quais são os lugares (reais ou virtuais) onde mais procuras inspiração?

O importante é ser feliz em qualquer área e ser feliz é ser criativo e, por isso, uma fonte perfeita de vida. Eu sou feliz no meio dos workshops de arte floral, no trabalho diário, na escrita. Adoro museus e isso tranquiliza-me, revejo-me imenso neles, no sentido nostálgico, a melancolia. Os museus têm sempre assunto. Há histórias e amores. As pessoas cumprem as ordens. (risos) Quando for rico compro um.

 

Obrigado, Amaro.

Rabiscando o sentido da vida

O quotidiano ilustrado do Bé Cartoon

Janeiro 21, 2020

Pedro Neves

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A Elisabete usa o blog Bé Cartoon para publicar uma tira de banda desenhada da sua autoria, inspirada no seu quotidiano em Braga. Colocámos-lhe algumas perguntas por escrito sobre a sua experiência e o desafio criativo a que se propôs.

O que podemos saber sobre a Elisabete?

Nasci em 1989, em Braga. Venho de uma família simples, mas que nunca me impediu de fazer as coisas que eu gostava. Tive uma infância muito rica de experiências, pois nos primeiros anos de vida, vivi em vários locais do norte do país devido à profissão dos meus pais, e isso permitiu um grande contacto com pessoas diferentes, desde a avó "Lili" (a minha ama) em Santo Tirso, e que me ensinou lengalengas e a rezar ao anjinho da guarda, passando pelas minhas educadoras do jardim de infância em Aveiro, que me levaram anos mais tarde a querer seguir profissão semelhante (infelizmente não foi possível), e por fim, pela minha professora da primária que incentivava os alunos a ler e que chegava a emprestar os livros da filha para esse efeito (isto acontecia anos antes do plano nacional de leitura). Estudei até ao 12° ano do curso profissional de Animação Sócio-cultural/Infância.

Considero que ir para uma escola profissional foi das melhores decisões que tive, pois se tivesse seguido o ensino "normal" teria reprovado e por consequência, iria desistir de estudar. Além disso, tenho grandes memórias dessa época que recordo com nostalgia. Hoje em dia trabalho num restaurante de take way. Não é o meu emprego de sonho, mas permitiu-me a possibilidade de ter alguma independência financeira, que foi fundamental para eu poder ter hoje o blogue.

Como surgiu a ideia para criar o Bé Cartoon?

Acho que a ideia já estava arrumada algures na minha mente há muito tempo, mas eu não sabia o que fazer exactamente. Na adolescência eu ia muitas vezes para a biblioteca da escola, e lá havia vários livros de um cartoonista chamado Bill Amend, rapidamente tornei-me fã do género, e lembro de tentar já nessa altura, fazer uns cartoons, mas eu desenhava muito mal e os desenhos acabavam no lixo. Os anos foram passando, e a vontade de desenhar ia aumentando. Entretanto, fiquei muito tempo desempregada, e fiquei desmotivada, praticamente mal desenhava. Quando finalmente arranjei trabalho, decidi investir num tablet em segunda mão para desenhar (até aí só desenhava em papel), nessa época rabiscava umas coisas sem importante, e nesse meio tempo tinha criado o meu primeiro blogue no sapo. Por vezes colocava desenhos nesse blogue, mas com o tempo, senti que esse blogue não me preenchia, não era exactamente aquilo que eu queria. Em Maio do ano passado, uma ideia fez luz na minha cabeça: e se eu criasse uns cartoons da minha autoria, apenas por distracção? A verdade é que fui ganhando o gosto, e a partir daí nunca mais parei, e tempos depois, quando já tinha alguma quantidade de desenhos, criei o Bé cartoon (confesso que tirei a ideia do título, do Henricartoon, o cartonista do Sapo).

Já tinha tido a experiência de publicar os seus desenhos? Como tem sido o feedback de quem visita o blog?

Sim, no outro blogue, notava que as publicações com os desenhos que eu fazia, tinham muitas vezes mais visualizações do que as outras publicações. No Instagram também publico alguns desenhos que faço. O feedback tem sido bastante positivo, as pessoas gostam e dão-me os parabéns, e isso dá ainda mais ânimo para continuar este projecto.

Como foi a sua introdução ao desenho?

Desenho há muito tempo. As memórias mais antigas que tenho são de desenhar (uns rabiscos terríveis em revistas velhas). Quando saí do infantário, em Aveiro, aquilo que me deixou mais triste foi de ter deixado a minha capa com os desenhos para trás. Mais tarde, lembro-me de o meu pai comprar o Jornal de Notícias ao Domingo, e na revista do jornal vir o suplemento "Terra do Nunca" (direccionado para as crianças). Na primeira página, vinha sempre a publicação de desenhos de outras crianças e eu tentava imitar o estilo desses desenhos. Era assim que eu ia evoluindo, no 7° ano encontrei uma professora de educação visual bastante exigente (eu era um bocado preguiçosa em alguns aspectos do desenho) e que me ajudou a disciplinar um pouco o desenho.

Ao longo do tempo fui observando o método de desenho de outras pessoas na Internet, e hoje em dia faço uns cursos na Udemy para aprimorar ainda mais o traço. É importante treinar sempre que possível para não perdermos a técnica.

Qual é o processo típico de desenvolvimento de uma tira?

Tudo começa com uma ideia que surge na hora. Logo que possível, guardo no telemóvel, e mais tarde faço o esboço. Como por norma tenho quatro "espaços" para preencher, adapto a ideia para esses espaços, sendo que último "espaço" é onde muitas vezes está a piada. Então, começo pelo primeiro "espaço" e a seguir faço o último "espaço", depois é como se fosse fazer uma espécie de caminho entre o primeiro e o último "espaço". Normalmente não peço opiniões, mas por vezes sou inspirada por alguma frase que ouço, ou algum comportamento que observo.

Qual é a sua principal fonte de inspiração para desenhar?

A minha inspiração são as pessoas no geral, mas também a vida quotidiana. A "personagem" principal é inspirada em mim, faço uma interpretação exagerada de mim mesma, porque acaba por ser mais fácil, e também porque numa época de politicamente correcto, facilmente podemos ofender alguém sem essa intenção, além disso, antes de brincarmos com os outros, temos de saber brincar connosco em primeiro lugar.

Obrigado, Elisabete!

Onde nos pode levar a criatividade?

O Júlio conta-nos como o levou numa caminhada de 13 mil quilómetros

Novembro 11, 2019

Pedro Neves

caminhante.jpg

Júlio Marques, um professor de Filosofia aposentado de Vila Nova de Gaia, encontrou uma forma curiosa de dar sentido às suas caminhadas diárias. Usando o telemóvel, registou os passos e quilómetros dados e somou-os até fazerem os 13 mil quilómetros que vão da sua cidade até Katmandu, no Nepal. Uma caminhada imaginária, mas percorrida, que começou em janeiro de 2016 e terminou no passado mês de setembro. Convidámos o Júlio a partilhar connosco a motivação para esta sua "maneira de andar".

Começando pelo início, pode dar-nos uma pequena introdução sobre o Júlio e o seu blog?

Nasci a 1 de janeiro de 1951, em Vilar Maior, uma aldeia cheia de História e de histórias, que continua, para mim, a ser o centro do mundo. Foi lá que aprendi a ser gente. Saí de lá porque a minha mãe achava que eu havia de ter uma vida que me subtraísse à literalidade da maldição bíblica: ganharás o pão com o suor do teu rosto. Por isso, rumei ao Alentejo, primeiro em Beja, depois em Évora e a seguir em Coimbra, num caminho que me deveria ter conduzido ao serviço de Deus e dos homens. Porém, fazia muitas perguntas, perguntas a mais num caminho seguro, certo, único que não suportava dúvidas nem hesitações. Foi, assim, que passei do caminho da fé ao caminho da razão, no exercício da Filosofia, primeiro como estudante e, depois, como professor. Reformado de professor, continuo filósofo livre, sem obediência que não seja a da obrigação honesta da procura do saber e com o ócio que permite ocupar-nos das coisas consideradas inúteis: a arte e a filosofia.

E levei suficientemente a sério o verso de Alberto Caeiro,

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo...,

para escrever um livro sobre esse pedaço de terra onde a maldição bíblica se cumpria escrupulosamente: Memórias de Vilar Maior, minha terra minha gente.

Em 2006, iniciei um blog sobre Vilar Maior que completou 13 anos no passado dia 6 de agosto e que constitui, hoje, um valioso património para os vilarmaiorenses.

O Júlio foi publicando no seu blog Badameco alguns posts onde registava uma caminhada de Portugal ao Nepal. Para quem não acompanhou, em que consiste essa caminhada?

As pessoas que, como eu, nasceram a seguir à Segunda Guerra Mundial viveram uma época extraordinária que, entre outras realizações, desembocou nas novas tecnologias da informação e da comunicação. Nunca, em tão pouco tempo, a Humanidade mudou tanto. Ferramentas poderosas foram colocadas à nossa disposição, nomeadamente, no ensino e educação - o meu campo profissional. Como diretor de um centro de formação de professores, pude testemunhar a resistência de muitos professores na aprendizagem e uso das novas tecnologias. E foi, na minha atividade de professor, que criei o meu primeiro blog - O (En) canto da Filosofia, que era complementado com um lugar físico - um canto onde se expunham livros e trabalhos. A par desse blog, criei um outro - O Pitagórico - onde postava sobre ciência, filosofia, educação, literatura, política, etc. A seguir, surge o Badameco (nome um pouco depreciativo), inspirado nos Ensaios de M. Montaigne que utilizava um vade mecum (vai comigo), um caderno de apontamentos para registo de ideias e observações. Montaigne havia de gostar de ter um iPhone como o meu e um blog onde postar os seus pensamentos.

Dentro dos objetos da minha vida, o IPhone foi o que teve (e continua a ter) uma importância maior, uma oferta de aniversário que me chegou à mão no dia 15 de Janeiro de 2016. No dia seguinte, fez-me o registo dos kms (aplicação saúde) da minha caminhada e de todas as caminhadas até ao dia 27 de setembro de 2019 que, de Vila Nova de Gaia me levaram até Katmandu, no Nepal, no sopé dos Himalaias.

Pode dizer-se que esta ideia forneceu-lhe a motivação que procurava para caminhar mais? Ou o impulso foi outro?

A ideia de transpor os kms feitos nas minhas caminhadas para um mapa surgiu-me, já com kms andados que davam para ir além Pirinéus. Então, tracei como objetivo chegar a Paris. A seguir, pensei em Napoleão e como ele e as suas tropas chegaram a Moscovo. Aí chegado, não me quis aventurar pela interminável Sibéria, nem sei como encontraria rotas. E decidi que haveria de chegar a Istambul, cidade incrível, onde, efetivamente, já havia estado e que me daria efetivo acesso pedestre ao continente asiático. Foi, então, que coloquei como objetivo atravessar a Índia e chegar a Katmandu, no sopé dos Himalaias, o que aconteceu no dia 27 de setembro de 2019. Não iria tão longe sem o meu iPhone que regista os meus passos; sem o meu Badameco onde anoto os sítios por onde passo e assumo compromissos comigo mesmo e onde dou conta de uma outra viagem dentro de mim, uma viagem mais longa que qualquer outra.

Andar, ler, escrever. Quando acentuamos uma dimensão na nossa vida, as outras começam a ordenar-se, coordenar-se, a subordinar-se a ela constituindo uma rede ou campo semântico. O andar é o que mais mexe connosco: nele se encontra materializado o espaço, o tempo, a aceleração - a física, a matemática, a história, a geografia , enfim, todas as ciências num corpo andante que, bípede, libertou as mãos para fazer, a cabeça para pensar e com os olhos poder contemplar o firmamento.

Precisamos de dar sentido ao que fazemos, porque em si o que fazemos pode não ter sentido nenhum. Levantar-se cedo, quase sempre antes do nascer sol, andar cerca de duas horas, não é para qualquer um. A questão é o que fazemos quando andamos. Andar, ler e escrever são três verbos que faço e que me fazem. São três atividades diacrónicas que nos ensinam que as coisas grandes se fazem de coisas pequenas - uma viagem é feita passo a passo, um texto feito palavra a palavra. Isso ensina-nos a ser humildes, persistentes e corajosos. Sem isso, não chegaria a Katmandu. Da próxima, irei mesmo de verdade, mas não será a mesma coisa.

Porquê esta região do planeta?

Talvez pela leitura que fiz do livro A Mais Alta Solidão, de João Garcia, onde nos conta a épica subida ao Monte Evereste. Muito do que sou devo-o aos livros e sei que esta minha maneira de andar também tem a ver com outras leituras das quais, de imediato, me surge Auto Retrato de um Escritor Enquanto Corredor de Fundo, de Haruki Murakami.

Por fim, o que se segue? Até onde pretende caminhar a seguir?

A próxima está em curso. Sei que é em África, sei que a partida foi de Alexandria (Egipto), sei que a chegada será na Cidade do Cabo (África do Sul). O itinerário será traçado. Distância a percorrer cerca de doze mil quilómetros. Quanto tempo? Não sei.

Obrigado, Júlio!

Nota: Post corrigido no dia 14.11 para refletir que Katmandu fica no Nepal e não na Índia, como erradamente referimos na introdução.

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